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Como acompanhar o mNAV e as holdings de uma treasury company de Bitcoin

O mNAV que você vê num painel parece ao vivo, mas metade dele está congelada no último comunicado. Este guia mostra a rotina para montar o número sozinho, conferir contra os agregadores e verificar as holdings na cadeia quando dá.

Fugazzi Research 12 min

Acompanhar o mNAV de uma treasury company em tempo real é cruzar duas fontes que andam em velocidades diferentes. O preço do Bitcoin, que muda a cada segundo, e a contagem de Bitcoin e de ações da empresa, que só muda quando sai um comunicado. Este guia mostra a rotina que a Fugazzi Research usa para montar esse número sozinho, conferir contra os painéis de terceiros e reduzir o ponto cego que quase ninguém enxerga.

Antes do passo a passo, um esclarecimento que vale para o guia inteiro. Nada aqui é recomendação de compra ou venda de qualquer ação. As empresas que operam esse modelo aparecem apenas como arquétipo, para tornar o método concreto. O objetivo é dar a você a rotina de monitoramento, não uma opinião sobre um papel específico. Se o conceito de mNAV ainda é novo, o ponto de partida é o que é mNAV, e se a própria ideia de empresa-tesouraria ainda não está clara, vale ler antes o que é uma treasury company.

Como acompanhar o mNAV de uma treasury company

A resposta curta é que não existe um botão que entrega o número pronto e confiável. O mNAV é uma conta, e o investidor sério monta essa conta a partir de dois blocos. Um bloco vem do último comunicado ao mercado da empresa, onde estão o total de Bitcoin que ela detém, chamado de holdings, e o número de ações em circulação. O outro bloco é o preço do Bitcoin ao vivo. Com esses dois blocos você calcula o valor da reserva, compara com o valor de mercado da empresa e obtém o mNAV. Os painéis de terceiros fazem essa mesma conta por você, mas herdam um atraso que você precisa saber identificar. Os seis passos abaixo detalham a rotina.

  1. Identificar o total de Bitcoin e o número de ações no último comunicado oficial.
  2. Obter o preço do Bitcoin ao vivo em uma fonte de mercado.
  3. Montar a conta do NAV e do mNAV com esses insumos.
  4. Comparar o seu número com o do painel de terceiros e entender a diferença.
  5. Checar se há endereços públicos ou atestação para verificar as holdings na cadeia.
  6. Calendarizar os próximos comunicados, porque o denominador da conta expira.

Passo um, o total de Bitcoin e de ações no comunicado

Tudo começa no documento oficial. A quantidade de Bitcoin que a empresa detém e o número de ações em circulação não são estimativas de terceiros, são dados que a própria companhia declara em comunicados periódicos. Nos Estados Unidos esses documentos aparecem como formulários enviados ao regulador, os relatórios trimestrais e os avisos de fato relevante. No Brasil, o equivalente é o fato relevante e as demonstrações trimestrais entregues à CVM. A fonte primária é sempre a área de relações com investidores da empresa e o repositório oficial do regulador, nunca um print de rede social.

Você precisa extrair dois números desse documento. O primeiro é o total de Bitcoin em tesouraria, as holdings. O segundo é a contagem de ações totalmente diluída, que inclui as ações que ainda vão existir se as dívidas conversíveis e as opções virarem ações. Usar a contagem diluída, e não apenas as ações em circulação hoje, é o que evita a surpresa de descobrir depois que o Bitcoin por ação era menor do que parecia. A mecânica dessa conversão está detalhada em o que é BTC per share.

Anote sempre a data do comunicado ao lado dos números. Um total de Bitcoin sem a data em que foi declarado é um dado incompleto, porque a partir dali ele já pode ter mudado. A data é o que permite medir o tamanho do atraso mais adiante.

Passo dois, o preço do Bitcoin ao vivo

O segundo insumo é o único que se atualiza em tempo real. Pegue o preço do Bitcoin em uma fonte de mercado confiável e, importante, na mesma moeda em que você vai avaliar a empresa. Se a treasury company negocia em dólar, use o Bitcoin em dólar. Se você quer enxergar a posição em real, converta tudo para real com o câmbio do mesmo instante. Misturar moedas é o erro silencioso que distorce o mNAV sem que você perceba.

Este passo parece trivial e é justamente por ser o único componente ao vivo da conta que ele engana. O preço se move a cada segundo, então a sensação é de que o mNAV inteiro está ao vivo. Não está. Só metade da conta respira, a outra metade está congelada no comunicado do passo um.

Passo três, montar o NAV e o mNAV

Com os dois blocos em mãos, a conta é direta. O NAV, sigla em inglês para valor líquido dos ativos, em uma treasury company é dominado pela posição em Bitcoin. Na versão simplificada, o valor da reserva é o total de Bitcoin multiplicado pelo preço ao vivo. O mNAV é o valor de mercado da empresa dividido por esse valor da reserva. Um mNAV acima de 1 significa prêmio, o mercado paga mais do que o Bitcoin no balanço vale. Abaixo de 1 significa desconto.

Vale um exemplo numérico, e todos os valores abaixo são hipotéticos, escolhidos apenas para ilustrar a mecânica. Imagine uma empresa que declarou deter 200.000 Bitcoin no último comunicado, com 250 milhões de ações totalmente diluídas. Suponha o Bitcoin a 100.000 dólares agora e a ação a 120 dólares.

ComponenteFonteValor hipotético
Total de Bitcoin (holdings)Comunicado200.000 BTC
Ações diluídasComunicado250 milhões
Preço do BitcoinMercado ao vivoUS$ 100.000
Preço da açãoMercado ao vivoUS$ 120
Valor da reserva (NAV)200.000 × 100.000US$ 20 bilhões
Valor de mercado250 mi × 120US$ 30 bilhões
mNAV30 bi ÷ 20 bi1,5

Nesse cenário hipotético, o mNAV de 1,5 diz que o mercado paga uma vez e meia o valor do Bitcoin detido, um prêmio de 50%. O Bitcoin por ação sai da mesma tabela, os 200.000 Bitcoin divididos pelas 250 milhões de ações dão 0,0008 Bitcoin por ação. Repare que a única variável ao vivo nessa tabela é o preço, tanto do Bitcoin quanto da ação. As duas contagens, de Bitcoin e de ações, vieram congeladas do comunicado.

Congelado
Total de Bitcoin e contagem de ações, do comunicado
Ao vivo
Preço do Bitcoin e da ação, do mercado
Híbrido
O mNAV, metade fresco e metade defasado

Passo quatro, comparar com o painel de terceiros

Existem agregadores que publicam o mNAV e o total de Bitcoin de várias treasury companies em um painel único, e eles poupam trabalho. O uso correto desses painéis não é substituir a sua conta, é conferir contra ela. Quando o seu número e o do painel batem, você ganha confiança nos dois. Quando divergem, a divergência é informação. Ela costuma apontar para uma diferença de premissa que vale investigar.

  • Contagem de ações. O painel pode usar as ações em circulação e você a contagem diluída, ou vice-versa. Essa é a origem mais comum de divergência.
  • Data das holdings. O painel pode ter capturado um comunicado mais antigo, ou mais recente, do que o seu.
  • Ajustes de caixa e dívida. Algumas contas de NAV somam o caixa e subtraem a dívida, outras olham só o Bitcoin. Saber qual versão você está lendo muda o número.
  • Defasagem de atualização. O painel pode atualizar o preço em intervalos, então em um dia de forte oscilação o seu número ao vivo estará à frente do dele.

Passo cinco, verificar as holdings na cadeia

Até aqui todo o método confia no que a empresa declarou. O passo que reduz essa confiança cega é a verificação na cadeia, ou seja, conferir o Bitcoin diretamente na blockchain. Isso só é possível quando a empresa publica os endereços da sua carteira ou uma atestação criptográfica que comprove a posse das chaves. Com os endereços em mãos, qualquer pessoa consulta o saldo na cadeia e confirma que a reserva existe de fato. Esse é o mesmo princípio de prova de reservas que se cobra das corretoras.

O ponto desconfortável é que a maioria das treasury companies não publica endereços nem atestação. Os motivos variam, de segurança operacional a uso de custodiantes que não expõem a estrutura, mas o efeito para o investidor é o mesmo. Sem endereços públicos, a verificação na cadeia fica impossível e você volta a depender do comunicado. Reconhecer isso é o que separa a diligência da ilusão de controle. A ausência de prova on-chain não prova que a empresa mente, mas ela mantém a reserva no campo da confiança, não da verificação.

Prova de reservas mostra o ativo, não o passivo. Mesmo que a empresa publique endereços que somam o Bitcoin declarado, isso não diz nada sobre a dívida pendurada contra essa reserva. Por isso a checagem na cadeia complementa, mas não substitui, a leitura da estrutura de capital.

Passo seis, calendarizar os próximos comunicados

O último passo é tratar a sua conta como um número com prazo de validade. O total de Bitcoin e a contagem de ações que você usou expiram no próximo comunicado. Por isso vale marcar no calendário as datas prováveis das próximas divulgações, os resultados trimestrais e os avisos de compra ou de emissão. Entre uma divulgação e outra, trate o seu Bitcoin por ação como uma referência que envelhece, não como um dado do minuto.

Empresas mais transparentes publicam avisos sempre que compram Bitcoin em volume relevante, o que encurta o atraso. Outras só atualizam no ritmo obrigatório do trimestre. Saber em que ritmo a empresa que você acompanha divulga é parte do trabalho, porque define o tamanho do ponto cego com que você convive entre um número e outro.


Por que o mNAV do painel chega atrasado

Aqui está o mecanismo que quase nenhuma fonte explica direito. O mNAV parece um número ao vivo porque o preço, que salta na tela, é ao vivo de verdade. Mas o denominador da conta, o total de Bitcoin, e parte do numerador, a contagem de ações, vêm do último comunicado e ficam congelados até o próximo. Entre uma divulgação e outra, a empresa pode ter comprado mais Bitcoin, o que faria a reserva real ser maior do que a que aparece na conta, e pode ter emitido mais ações via emissão contínua no mercado, o que faria o valor de mercado real ser diluído em relação ao que a conta assume.

As duas coisas puxam o mNAV declarado em direções opostas ao longo do tempo, e nenhum painel corrige isso em tempo real, porque a informação necessária simplesmente ainda não foi publicada. A mecânica de captação que alimenta esse descompasso está em o que é emissão ATM, a emissão contínua de ações a mercado que muda a contagem sem aviso diário.

O preço é ao vivo, mas a contagem de Bitcoin e de ações está congelada no último comunicado. O mNAV que você vê num painel é sempre uma foto meio velha vestida de tempo real.

A conclusão prática não é abandonar o mNAV, é lê-lo com a data do comunicado sempre ao lado. Quanto mais antigo o comunicado que alimenta a conta, maior o desconto de confiança que o número merece. E quando a diferença entre o seu cálculo e o do painel importa para uma decisão, a saída é ir à fonte, o próprio comunicado, em vez de aceitar o agregado. Esse rigor de coleta é a etapa que alimenta o framework de julgamento descrito em como analisar uma treasury company de Bitcoin.

Perguntas frequentes sobre acompanhar o mNAV

Onde vejo quantos bitcoins uma empresa tem agora?

No comunicado oficial mais recente da empresa, publicado na área de relações com investidores e no repositório do regulador. Esse número reflete a data do comunicado, não o minuto atual. Entre uma divulgação e outra, a empresa pode ter comprado mais Bitcoin sem que isso apareça em lugar nenhum ainda. Os painéis de terceiros repetem esse mesmo número declarado, com o mesmo atraso.

Dá para confiar no mNAV que aparece nos agregadores?

Dá para usá-lo como ponto de partida, não como verdade do minuto. O preço no painel é ao vivo, mas o total de Bitcoin e a contagem de ações vêm do último comunicado e ficam congelados até o próximo. Confira o número do painel contra a sua própria conta e, quando divergirem, investigue a premissa, em geral a contagem de ações ou a data das holdings.

É possível verificar a reserva de Bitcoin na blockchain?

Só quando a empresa publica os endereços da carteira ou uma atestação de posse das chaves, o que a maioria não faz. Com endereços públicos, qualquer pessoa confere o saldo na cadeia. Sem eles, a reserva permanece no campo da confiança no comunicado, e nenhum painel resolve isso, porque a informação não está disponível para ninguém.

Com que frequência devo refazer a conta do mNAV?

O preço muda o tempo todo, então o valor da reserva e o mNAV podem ser recalculados quando você quiser. Já o total de Bitcoin e a contagem de ações só mudam nos comunicados, então essa metade da conta você atualiza a cada nova divulgação. Marcar as datas das próximas divulgações no calendário é o que mantém a conta honesta.

Fugazzi Research

Do conceito ao método aplicado.

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Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

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Autoria e conformidade

Conteúdo educacional produzido de forma independente pela Fugazzi Research, casa de análise credenciada como pessoa jurídica pela APIMEC Brasil, sob responsabilidade técnica do analista Eduardo Biasi, CNPI 10189 (Certificação Nacional do Profissional de Investimento), credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021. Regulatório e Compliance.

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