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O que é ação preferencial de treasury company de Bitcoin

Uma treasury company de Bitcoin não é só ação comum mais dívida conversível. Entre as duas existe uma camada de ações preferenciais que paga dividendo prioritário, e a versão perpétua não vence nem converte. Comprar a ação comum é comprar a fatia mais subordinada dessa pilha.

Fugazzi Research 13 min

Uma ação preferencial de treasury company de Bitcoin é uma camada de capital que fica entre a dívida e a ação comum. Ela paga um dividendo definido, tem prioridade sobre o acionista comum na fila de recebimento e, na versão perpétua de taxa fixa, não tem prazo de vencimento nem gatilho de conversão. Quem compra a ação comum de uma dessas empresas está comprando a fatia mais subordinada de uma pilha com várias camadas seniores na frente, e quase ninguém em português explica isso direito.

A pergunta que abre o tema é direta. O que é uma ação preferencial de treasury company de Bitcoin, e por que ela muda o risco de quem só compra a ação comum. A resposta curta está no parágrafo acima. A resposta longa exige enxergar a empresa como uma pilha de camadas de capital, e não como um bloco único de Bitcoin embrulhado em ações.

O conceito só faz sentido dentro do modelo das empresas que existem para acumular Bitcoin no balanço, então vale começar pela página-hub do tema, que explica a estratégia inteira em o que é uma treasury company. Essas empresas captam recursos e os convertem em Bitcoin. A novidade desta peça é que a captação não se resume a dois motores. Além da dívida conversível e da emissão ATM, existe uma terceira camada, a das ações preferenciais, e ela é a mais mal compreendida das três.

A pilha de capital que quase ninguém enxerga

Uma empresa não é feita de um tipo só de capital. Ela empilha instrumentos que se diferenciam por uma coisa acima de tudo, a ordem em que cada um recebe. Quem está no topo da pilha recebe primeiro e corre menos risco. Quem está na base recebe por último, só o que sobrar depois de todos os outros, e corre mais risco em troca de todo o potencial de ganho.

Numa treasury company de Bitcoin essa pilha tem três andares principais. No topo fica a dívida, que inclui a dívida conversível e paga juros e principal como obrigação contratual. No meio fica a ação preferencial, que paga um dividendo prioritário. Na base fica a ação comum, que é o resíduo, aquilo que resta depois de a dívida e a preferencial serem servidas. A maioria dos investidores brasileiros só conhece o andar da ação comum, e acredita que está comprando o prédio inteiro.

Camada de capitalPosição na filaNatureza do pagamento
Dívida, inclui a conversívelMais sêniorJuros e principal, obrigação contratual
Ação preferencialIntermediáriaDividendo prioritário sobre o comum
Ação comumMais subordinadaResíduo, recebe só o que sobrar

Sênior e subordinado são os dois termos que organizam tudo. Uma camada sênior recebe antes de uma subordinada, tanto no pagamento de proventos quanto numa eventual liquidação da empresa. A preferencial é sênior à ação comum e subordinada à dívida. Guardar essa ordem é metade do entendimento do tema.

Preferencial conversível e preferencial perpétua

A palavra preferencial esconde instrumentos bem diferentes. Vale separar os dois arquétipos que aparecem nas treasury companies de Bitcoin, porque eles têm perfis de risco quase opostos.

A preferencial conversível carrega embutida uma opção de compra, ou seja, o direito de trocar a preferencial por ação comum se a cotação subir o suficiente. Ela funciona no mesmo espírito da dívida conversível. Paga um dividendo menor porque o investidor leva junto a aposta na valorização da ação. Se a ação disparar, converte e participa do ganho. Se não, segura o dividendo.

A preferencial perpétua de taxa fixa é outra criatura. Perpétua quer dizer sem data de vencimento, a empresa não promete devolver o valor de face em nenhum momento marcado. Taxa fixa quer dizer que o dividendo é definido e não muda com o lucro. Não há conversão em ação comum. Quem compra esse papel está atrás do carrego, o rendimento corrente do dividendo, e não da aposta na ação. É o instrumento mais mal compreendido da pilha, e o foco central desta peça.

Conversível
Dividendo menor, com opção de virar ação comum se a cotação subir
Perpétua fixa
Dividendo definido, sem vencimento e sem conversão em ação
Senioridade
As duas recebem antes do acionista comum, e depois da dívida

A Strategy, a maior treasury company de Bitcoin, popularizou essa camada com famílias de preferenciais batizadas com nomes próprios, entre elas STRK, STRF e STRC. Elas não são a mesma coisa. Algumas são conversíveis, no espírito descrito acima. Outras são perpétuas de taxa fixa, feitas para o carrego do dividendo. O cupom, o valor de face e as condições exatas de cada série mudam de papel para papel e precisam ser lidos no documento da oferta de cada um. O ponto que interessa aqui não é decorar as siglas. É entender que são camadas distintas de uma mesma pilha de capital, cada uma com o seu lugar na fila.

O dividendo perpétuo e o Bitcoin por ação

Aqui está o mecanismo não óbvio. A preferencial perpétua de taxa fixa cria um passivo de dividendo que corre para sempre, e esse passivo senta na frente do acionista comum. Vale um exemplo numérico, com números hipotéticos apenas para ilustrar a mecânica, sem relação com nenhum papel real.

Imagine uma treasury company que emite uma preferencial perpétua de taxa fixa com valor de face de 100 e dividendo de 10% ao ano. Ela vende 10 milhões dessas preferenciais e capta 1 bilhão, que vira Bitcoin no balanço. A partir daí a empresa deve 100 milhões de dividendo por ano, todo ano, sem data para acabar. Esse pagamento é prioritário sobre o acionista comum. Ele corre mesmo que o Bitcoin caia pela metade.

Suponha que o 1 bilhão comprou 15 mil Bitcoins, de novo um número hipotético. Enquanto a empresa não emite ações comuns novas, esses 100 milhões de dividendo anual precisam sair de algum lugar. Ou do caixa operacional, ou de nova captação, ou da venda de parte do Bitcoin. Se a saída for vender Bitcoin, o total do balanço encolhe e o Bitcoin por ação do acionista comum cai. O dividendo perpétuo é uma torneira aberta para fora, e ela pinga do bolso do comum.

No ciclo de alta o dividendo da preferencial parece um detalhe barato, financiado com facilidade por emissão de ação com prêmio. No ciclo de baixa ele vira um dreno fixo que continua correndo enquanto o Bitcoin cai, e drena caixa antes de o acionista comum ver qualquer coisa. O passivo não some quando o mercado vira. Ele fica.

A preferencial perpétua se comporta como uma perpetuidade, um fluxo fixo que não termina. O preço de uma perpetuidade é o dividendo anual dividido pela taxa de retorno que o mercado exige. No exemplo, um dividendo de 10 sobre uma exigência de 10% dá um preço de 100, o valor de face. Se o mercado passa a exigir 12,5% desse mesmo papel, o preço cai para 80, porque 10 dividido por 0,125 é 80. É o mesmo movimento de um título de renda fixa longo quando o juro sobe. O dividendo não mudou, o preço do papel sim.

O erro que esta peça corrige

O erro mais comum é tratar a ação comum de uma treasury company como se ela fosse um direito sobre todo o Bitcoin do balanço. Não é. A ação comum é o resíduo, o que sobra depois de a dívida e as preferenciais serem pagas. Cada camada sênior adicionada acima dela subtrai da parte que cabe ao comum, sobretudo num cenário ruim.

Comprar a ação comum de uma treasury company com dívida e preferenciais é comprar a fatia mais subordinada de uma estrutura alavancada, não uma cota limpa do Bitcoin que a empresa detém.

O segundo erro é o espelho do primeiro. É tratar a preferencial perpétua como se fosse renda fixa segura, só porque paga um dividendo definido e vem com o rótulo de preferencial. O dividendo é prioritário sobre o comum, mas não é garantido como o de um título soberano. Ele depende de a empresa ter caixa, e o caixa depende de uma estratégia inteiramente lastreada em Bitcoin. O rótulo não remove o risco do ativo que está embaixo.

O que isso muda para o investidor brasileiro

O investidor brasileiro encontra esse tema por dois caminhos. Ou se depara com os tickers de preferenciais da Strategy ao estudar a empresa, ou vê uma treasury company local emitir um instrumento parecido, embrulhado em nomes conhecidos do mercado de capitais brasileiro, como debênture ou ação preferencial. Em ambos os casos vale a mesma disciplina. Ler em que andar da pilha o papel senta antes de decidir qualquer coisa.

Se o papel oferecido é a ação comum, o investidor precisa saber quanta dívida e quanta preferencial estão na frente dele, porque isso define quanto do Bitcoin realmente lastreia a sua fatia. Se o papel é uma preferencial perpétua, o investidor precisa entender que o dividendo definido não converte o instrumento em renda fixa conservadora, porque o lastro continua sendo Bitcoin e o crédito do emissor. A leitura correta da estrutura de capital é o que separa a análise séria da cobertura rasa, e é o que a Fugazzi Research trata em treasury company é modelo sustentável ou alavancagem disfarçada.


O que olhar na prática

A camada de preferenciais não vive sozinha. Ela interage com a dívida acima e com a ação comum abaixo. Os pontos objetivos de uma análise são poucos e claros.

  • O tamanho da camada preferencial em relação ao Bitcoin detido. Quanto maior a preferencial, menos Bitcoin sobra para lastrear a ação comum.
  • O dividendo anual somado de todas as preferenciais. Esse é o dreno fixo que corre em qualquer cenário, inclusive numa queda forte do Bitcoin.
  • Se cada série é conversível ou perpétua de taxa fixa. A conversível pode diluir o comum no futuro, a perpétua pesa como passivo permanente de caixa.
  • O efeito combinado sobre o Bitcoin por ação. O que importa ao acionista comum é quanto Bitcoin lastreia cada ação depois de honradas as camadas seniores.
  • O passo a passo completo dessa leitura está no guia de como analisar uma treasury company de Bitcoin.

Entendida com cuidado, a camada de preferenciais é uma engenharia de capital que permite a uma treasury company captar sem diluir o comum de imediato e sem criar dívida com vencimento. Entendida com ingenuidade, ela é um passivo sênior que corre por baixo do radar do acionista comum. A diferença está em respeitar a ordem da fila. A Fugazzi Research acompanha esse tema como caso de estudo crítico, sem nenhuma recomendação de compra de papéis específicos.

Perguntas frequentes sobre ação preferencial de treasury company

Ação preferencial de treasury company de Bitcoin é renda fixa?

Não. Ela paga um dividendo definido e é sênior à ação comum, o que a aproxima da renda fixa na aparência, mas o lastro continua sendo Bitcoin e o crédito do emissor. Na versão perpétua não há data para devolver o valor de face, e o preço do papel oscila conforme a taxa que o mercado exige. É um instrumento de risco intermediário dentro de uma estratégia alavancada, não um título conservador. Isto não é recomendação de investimento.

Qual a diferença entre a preferencial conversível e a perpétua de taxa fixa?

A conversível carrega a opção de virar ação comum se a cotação subir o suficiente, então paga um dividendo menor em troca dessa aposta na valorização. A perpétua de taxa fixa não converte e não vence, paga um dividendo definido para sempre e serve a quem quer o carrego do dividendo, não a exposição à ação. Uma pode diluir o comum no futuro, a outra pesa como passivo permanente de caixa.

Comprar a preferencial é mais seguro do que a ação comum da mesma empresa?

A preferencial senta acima da ação comum na fila de recebimento e costuma oscilar menos, então corre menos risco num cenário ruim. Em troca, ela abre mão de quase todo o potencial de alta que a ação comum tem quando o Bitcoin dispara. Menos risco e menos potencial andam juntos. As duas ainda carregam o risco do Bitcoin e do emissor, e a escolha depende do objetivo de cada um. Isto não é recomendação de investimento.

Fugazzi Research

Do conceito ao método aplicado.

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Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

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Autoria e conformidade

Conteúdo educacional produzido de forma independente pela Fugazzi Research, casa de análise credenciada como pessoa jurídica pela APIMEC Brasil, sob responsabilidade técnica do analista Eduardo Biasi, CNPI 10189 (Certificação Nacional do Profissional de Investimento), credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021. Regulatório e Compliance.

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