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Fluxo estrangeiro na B3, onde consultar o dado oficial e como separar sinal de ruído

O saldo de compras e vendas do investidor não residente é público, gratuito e um dos números mais citados do pregão. Este verbete mostra onde encontrá-lo, o que ele mede de fato e por que a leitura semanal costuma enganar.

Fugazzi Research 8 min

Em janeiro de 2026, o investidor estrangeiro colocou R$ 26,31 bilhões líquidos em ações brasileiras, mais do que em todo o ano de 2025 somado, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta sobre dados da B3. No mesmo mês, o Ibovespa saltou da casa dos 161 mil para a dos 181 mil pontos. A coincidência alimenta as três perguntas que este verbete responde. O que é exatamente o fluxo estrangeiro na B3, onde consultar o dado oficial, e até onde vai a relação dele com o índice.

O fluxo estrangeiro é o saldo entre o que os investidores não residentes compraram e venderam em ações no mercado secundário da B3, o ambiente onde os papéis trocam de mãos todos os dias. Saldo positivo significa que o estrangeiro comprou mais do que vendeu no período. Saldo negativo, o contrário. Na medição mais comum, o número não inclui o dinheiro que entra por ofertas públicas iniciais, os IPOs, nem por ofertas subsequentes, os follow-ons, que costumam ser contados à parte. Por isso o mesmo ano pode aparecer com dois saldos diferentes em levantamentos distintos, um só de pregão e outro somando as ofertas.

Onde consultar o dado oficial

A fonte primária é a própria B3. A bolsa publica a participação dos investidores no mercado à vista, com volume e saldo abertos por categoria, pessoa física, institucional, investidor estrangeiro, instituição financeira e outros. O dado é diário, mas sai com alguns pregões de defasagem, o que explica por que o fluxo de hoje que circula nas redes é, a rigor, o fluxo de alguns dias atrás.

  • B3. Relatório de participação dos investidores no mercado à vista, na área de market data (dados de mercado) do site da bolsa. É o dado oficial, diário, aberto por tipo de investidor.
  • Banco Central. O fluxo cambial semanal mostra quantos dólares entraram e saíram do país pelos segmentos comercial e financeiro. Mede outra coisa, o câmbio contratado, e não a compra de ações no pregão.
  • Compiladores. Consultorias e plataformas, caso da Elos Ayta e do Dados de Mercado, organizam a série da B3 em históricos mensais e anuais, o que facilita a leitura acumulada e a comparação entre períodos.
Fluxo da B3 e fluxo cambial do Banco Central não são o mesmo dado. Um estrangeiro pode vender ações e manter os reais no país, e um dólar que entra pelo segmento financeiro pode ir para títulos públicos, não para a bolsa. Os dois indicadores se complementam, mas um não substitui o outro.

Quanto o estrangeiro pesa no volume

O não residente não é coadjuvante no pregão brasileiro. Em 2025, os investidores estrangeiros movimentaram R$ 2,8 trilhões em ações na B3, o equivalente a 62% de todo o volume negociado no ano, considerando compras e vendas, segundo dados da plataforma Datawise+, solução da B3 com a Neoway, divulgados pelo InfoMoney em janeiro de 2026. Somente em dezembro de 2025 foram R$ 255 bilhões negociados por essa categoria.

Esse dinheiro se concentra nos papéis de maior liquidez. O mesmo levantamento mostra que a lista das ações mais negociadas pelos não residentes em 2025 é dominada por Vale, Petrobras e pelos grandes bancos, justamente as blue chips, as ações de maior porte e liquidez, que mais pesam no Ibovespa. Essa concentração ajuda a entender por que fluxo e índice andam tão colados. O estrangeiro negocia, sobretudo, o miolo da carteira teórica.

A correlação com o Ibovespa, sem promessa de previsão

Os anos recentes ilustram bem a correlação. Em 2024, o saldo estrangeiro ficou negativo em R$ 24,20 bilhões, considerando também a participação em ofertas, num ano de queda para o índice. Em 2025, o saldo virou para R$ 26,87 bilhões positivos e o Ibovespa subiu 33,95%, conforme os dados da B3 e da Elos Ayta publicados pelo InfoMoney. Em janeiro de 2026, o recorde mensal de R$ 26,31 bilhões, o maior da série da Elos Ayta iniciada em 2022, coincidiu com o salto do índice aos 181 mil pontos e com compras brutas de R$ 421,4 bilhões pelos não residentes no mês.

O gráfico abaixo acompanha 2026 mês a mês. O saldo estrangeiro acumulado no ano subiu até cerca de R$ 56,5 bilhões no fim de abril, enquanto o Ibovespa renovava máximas na faixa de 187 mil a 189 mil pontos. Em maio e junho, o estrangeiro sacou cerca de R$ 22,7 bilhões, e o índice recuou para a casa dos 172 mil. Até 15 de julho, o acumulado do ano estava em R$ 36,1 bilhões, sempre pela série de participação dos investidores da B3.

Fluxo estrangeiro acumulado em 2026 vs Ibovespa
Figura. Saldo acumulado das compras e vendas de investidores não residentes no mercado secundário da B3 em 2026 (R$ bilhões, eixo esquerdo) contra o fechamento mensal do Ibovespa (mil pontos, eixo direito). Dezembro de 2025 é a base zero do acumulado. Último ponto parcial, com fluxo até 15/07/2026 e Ibovespa de meados de julho. Fontes: B3, participação dos investidores no mercado à vista (compilação Dados de Mercado); Ibovespa, B3 via Yahoo Finance. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros.

A correlação é visível no gráfico, mas ela não autoriza a conclusão de que o fluxo prevê o índice. Primeiro porque toda compra tem uma venda na outra ponta. No mesmo período de 2026 em que o estrangeiro comprou R$ 36 bilhões líquidos, o investidor institucional local vendeu R$ 38,7 bilhões líquidos, segundo a mesma série da B3, num ambiente em que, conforme analistas ouvidos pelo InfoMoney, os fundos de ações locais seguiam enfrentando resgates. O preço que sai do encontro dessas duas pontas depende de quem está mais apressado, não de quem aparece na manchete. Segundo porque o fluxo reage a variáveis que também mexem no índice ao mesmo tempo, o diferencial de juros, o risco-país e o apetite global por mercados emergentes, o que torna difícil separar causa de efeito. O canal que liga a política monetária americana a esse movimento está descrito no verbete sobre como o Fed afeta a bolsa brasileira.

O fluxo estrangeiro descreve com precisão o pregão que passou. Sobre o pregão seguinte, ele diz muito menos do que a manchete sugere.

Sinal e ruído na leitura semanal

O dado diário é ruidoso por natureza. Na segunda semana de julho de 2026, os saldos diários do estrangeiro na B3 foram de uma saída de R$ 607 milhões a uma entrada de R$ 1,5 bilhão, em pregões separados por 48 horas, pela série compilada do dado oficial. Quem tirasse conclusão de cada dia isolado viveria trocando de tese duas vezes por semana.

O terceiro trimestre de 2025 virou caso de estudo. Julho registrou saída forte, na esteira do anúncio das tarifas americanas sobre produtos brasileiros. Setembro registrou entrada de R$ 5,27 bilhões, o quarto melhor mês daquele ano. E o trimestre inteiro fechou com saldo positivo de apenas R$ 63,45 milhões, praticamente zero, segundo levantamento publicado pelo InfoMoney. Qualquer semana isolada daquele trimestre contava uma história que o trimestre inteiro desmentia.

A leitura que resiste ao ruído segue quatro regras simples.

  • Acumulado. A série acumulada no ano suaviza o ruído diário e mostra a direção do capital, como no gráfico acima. É a curva, não o ponto, que carrega informação.
  • Meses, não dias. Saldos mensais têm menos ruído, e comparações anuais, menos ainda. O recorde de janeiro de 2026 só ganha sentido contra a série histórica desde 2022.
  • Contexto. Entrada forte com dólar em queda e risco-país comprimindo conta uma história consistente. Entrada forte isolada pode ser só uma rotação pontual de carteira global.
  • Outra ponta. Verifique quem está vendendo para o estrangeiro. Institucional local vendendo por resgates é um pano de fundo diferente de pessoa física realizando lucro.

Nada nesse acompanhamento diz o que comprar ou vender. O valor está em separar o pano de fundo global do risco doméstico e em entender por que a bolsa brasileira às vezes se move forte num dia em que nada aconteceu no Brasil. O papel do câmbio nessa engrenagem, e a relação histórica do investidor brasileiro com o dólar, estão em outra análise da casa.

Perguntas frequentes sobre o fluxo estrangeiro na B3

Onde ver o fluxo estrangeiro da B3 atualizado e de graça?

Na própria B3, no relatório de participação dos investidores do mercado à vista, publicado com alguns pregões de defasagem. Compiladores como o Dados de Mercado e levantamentos de consultorias como a Elos Ayta organizam a mesma série em históricos mensais e anuais. Desconfie de fluxo em tempo real, o dado oficial não sai no mesmo dia do pregão.

Fluxo estrangeiro positivo significa que o Ibovespa vai subir?

Não. A correlação entre fluxo acumulado e índice é visível em vários períodos, como em 2025 e no início de 2026, mas ela descreve o passado, não garante o futuro. Toda compra do estrangeiro tem um vendedor local na outra ponta, e o preço final depende das duas forças. Em março de 2026, por exemplo, houve entrada líquida de R$ 11,7 bilhões e o índice fechou o mês praticamente de lado.

Qual a diferença entre o fluxo estrangeiro da B3 e o fluxo cambial do Banco Central?

O dado da B3 mede compras e vendas de ações no pregão por não residentes, em reais. O fluxo cambial do Banco Central mede dólares que entram e saem do país pelos segmentos comercial e financeiro, o que inclui empréstimos, lucros e investimento em títulos. Um estrangeiro pode comprar ações com reais que já estavam no Brasil sem gerar fluxo cambial, e o inverso também acontece.

Fugazzi Research

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Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

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