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Custódia colaborativa de Bitcoin, o meio-termo que não é autocustódia pura

Você detém duas de três chaves e um provedor detém a terceira, sem nunca poder mover seu Bitcoin sozinho. O arranjo reduz a chance de erro humano. Também entrega a um terceiro identificável a foto completa do quanto você tem.

Fugazzi Research 9 min

A custódia colaborativa é vendida como autocustódia sem o medo de perder a chave. A descrição é sedutora e quase correta. Você detém duas de três chaves, um provedor detém a terceira e ele nunca consegue mover seu Bitcoin sozinho. O que raramente é dito com a mesma clareza é que esse provedor passa a conhecer seu endereço, seu saldo e sua identidade, e pode ser intimado a entregar tudo isso.

Esta é uma peça de opinião embasada da Fugazzi Research. A tese é simples de enunciar e desconfortável de aceitar. A custódia colaborativa reduz um risco real, o do erro humano na autocustódia solitária, e no mesmo movimento reintroduz um risco de contraparte que estava ausente, só que disfarçado de conveniência. Chamar o arranjo de autocustódia pura é impreciso.

O que é custódia colaborativa

Custódia colaborativa é a mesma coisa que autocustódia?

Não é a mesma coisa, e a diferença está em quem participa do controle. A custódia colaborativa, tradução de collaborative custody, é um arranjo multisig, a carteira de múltiplas assinaturas, montado no formato de duas de três. Existem três chaves e são necessárias duas para gastar. Você detém duas delas e um provedor especializado detém a terceira. Provedores como Casa, Unchained e Theya oferecem esse modelo. A chave do provedor existe para dois fins, co-assinar sob regras combinadas e ajudar na recuperação se você perder uma das suas.

Na autocustódia solitária de chave única, você é o único responsável por uma seed phrase, a frase de recuperação, que não pode vazar nem se perder. No multisig que você mesmo administra por inteiro, o peso é ainda maior, porque além das chaves você precisa guardar o descriptor, o arquivo que descreve como as chaves se combinam. A custódia colaborativa tira do seu colo a parte mais delicada dessa engenharia e a coloca num provedor que faz isso profissionalmente.

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Chaves necessárias para gastar
2 chaves
O que você detém
1 chave
O que o provedor detém

Por que o provedor não move seu Bitcoin

O ponto que sustenta o marketing é verdadeiro. Com uma só chave, o provedor não atinge o quórum de duas e portanto não consegue gastar nada sozinho. Não há cenário em que ele saque seu Bitcoin por conta própria. E como você detém duas chaves, você atinge o quórum sem ele, o que significa que ele também não consegue travar o seu saque. O provedor não custodia o seu Bitcoin no sentido em que uma corretora custodia. Ele não pode nem levar nem impedir.

Vale fixar isso com um exemplo hipotético. Imagine que você guarde uma quantia qualquer em um arranjo de duas de três, com as chaves A e B suas e a chave C do provedor. Para gastar no dia a dia, você assina com A e B, e o provedor sequer é acionado. Se você perde a chave B, ainda tem A, e A somada à chave C do provedor forma o quórum de duas, então você recupera os fundos com a co-assinatura dele. Se o provedor desaparece, você continua com A e B, que já bastam. O único jeito de ficar preso é perder duas das três chaves ao mesmo tempo.

A conveniência real da custódia colaborativa não é impedir que o provedor roube, ele já não consegue. É te dar uma segunda tentativa quando você comete o erro que arruinaria uma autocustódia solitária, perder uma chave.

O risco que você reintroduz

Aqui está o que quase ninguém explica direito. Para poder co-assinar e para montar a carteira, o provedor precisa da sua xpub, a chave pública estendida da carteira. A partir de uma única xpub, qualquer um deriva todos os seus endereços, presentes e futuros. Como o histórico do Bitcoin é público e registrado na própria rede, o que se chama de on-chain, o provedor enxerga o seu saldo inteiro e cada movimento que você faz. Ele não precisa da sua permissão para olhar. A visão vem de graça com o arranjo.

Some a isso o cadastro. Para contratar o serviço você passa por KYC, a identificação com documento e identidade. O provedor agora liga um nome real a uma carteira e a um saldo exato. É uma informação que a corretora também tem, com uma diferença desconfortável. Você foi para a custódia colaborativa justamente para se afastar do modelo da corretora, e reintroduziu a parte mais sensível dele, a vigilância, sem perceber.

E o que é conhecido pode ser exigido. Um provedor é uma empresa identificável, sujeita à jurisdição do país onde opera, e pode ser alvo de uma intimação judicial que o obrigue a revelar o que sabe sobre você. O seu Bitcoin continua fora do alcance dele, mas a fotografia de quanto você tem, onde está e quem é você, não. Trocar o risco de errar sozinho pelo risco de um terceiro que sabe exatamente quanto você tem nem sempre é um mau negócio, mas é uma troca, e precisa ser tratada como tal.

O provedor não pode levar o seu Bitcoin nem impedir o seu saque. O que ele ganha é algo mais silencioso, a visão permanente e identificada de tudo que você tem. Esse é o risco de contraparte que o arranjo esconde.

O erro comum

Há dois enganos simétricos sobre custódia colaborativa. O primeiro é o medo de que o provedor possa confiscar os fundos, o que não procede quando você detém duas das três chaves, porque ele nunca atinge o quórum. O segundo é o oposto, tratar o arranjo como autocustódia pura, como se a presença de um terceiro fosse detalhe técnico. Também não procede. O provedor não toca no seu dinheiro, mas conhece a sua vida financeira em Bitcoin e dele depende a sua rede de recuperação.

O segundo engano tem uma consequência prática. Se a sua recuperação depende da chave do provedor e ele fecha as portas, quebra ou encerra o serviço, a sua margem de erro encolhe. Você volta a depender apenas das suas duas chaves, e se já tiver perdido uma antes disso, o problema é sério. Um bom provedor mitiga esse risco entregando a você o descriptor completo e a capacidade de recuperar por conta própria, sem ele. Isso se cruza com a lógica de sucessão que explicamos no protocolo de herança em Bitcoin, em que a recuperação também não pode depender de uma única parte estar viva e disponível.

Vale entender onde a custódia colaborativa se encaixa no debate maior de arranjos. Ela é um meio-termo entre a chave única e o multisig que você administra sozinho, tema que tratamos em single-sig ou multisig, e é também uma resposta à recusa de deixar o Bitcoin na corretora, ponto de partida do artigo sobre por que a autocustódia deixou de ser opcional.


Implicação para o investidor brasileiro

Para quem investe do Brasil, dois pontos merecem atenção. O primeiro é de jurisdição. Os provedores de custódia colaborativa mais conhecidos operam no exterior, o que significa entregar a sua xpub e o seu cadastro a uma empresa sujeita a leis de outro país, com regras próprias sobre quando e como esses dados podem ser compartilhados. O segundo é de soberania sobre a recuperação. Antes de adotar o modelo, confirme que você consegue exportar o descriptor e reconstruir a carteira sem depender do provedor, porque é isso que mantém o arranjo do lado da autocustódia e não do lado da custódia terceirizada.

A custódia colaborativa faz sentido para um perfil específico. Alguém que acha a autocustódia solitária assustadora, não quer o risco de contraparte de uma corretora e aceita pagar em privacidade pela rede de segurança de um co-assinante profissional. É uma escolha legítima. O que ela não é, e é aqui que insistimos, é autocustódia sem asteriscos. Quem domina o próprio backup e entende o arranjo de várias chaves costuma não precisar do intermediário. Quem não domina ganha uma muleta útil, desde que saiba o preço dela.

A pergunta que resolve a decisão não é se o provedor é confiável. É se você consegue viver sem ele. Se a resposta for sim, você tem autocustódia com uma ajuda opcional. Se for não, você tem uma forma mais elegante de custódia terceirizada.

Perguntas frequentes

Custódia colaborativa é autocustódia de verdade?

É um arranjo intermediário. Você mantém o controle porque detém duas das três chaves e move os fundos sem o provedor, o que a aproxima da autocustódia. Mas o provedor conhece a sua xpub, o seu saldo e a sua identidade, e a sua recuperação pode depender dele. Por isso não é autocustódia pura. É autocustódia com um co-assinante que enxerga tudo o que você tem.

O provedor de custódia colaborativa pode confiscar ou travar meu Bitcoin?

Não, desde que você detenha duas das três chaves. Com uma única chave, o provedor não atinge o quórum de duas exigido para gastar, então não consegue mover nada sozinho. E como você atinge o quórum sem ele, também não consegue impedir o seu saque. O poder dele não é sobre o dinheiro, é sobre a informação.

Quando a custódia colaborativa vale a pena?

Ela faz sentido para quem acha a autocustódia solitária assustadora, recusa o risco de deixar na corretora e aceita abrir mão de privacidade em troca da rede de segurança de um co-assinante profissional. Antes de adotar, confirme que consegue exportar o descriptor e recuperar a carteira sem o provedor. Se não conseguir, o arranjo se aproxima de uma custódia terceirizada disfarçada.

Fugazzi Research

Do conceito ao método aplicado.

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Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

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