ArtigoGLOBALOURORESERVAS

Por que bancos centrais compram ouro em ritmo recorde

A série do World Gold Council registrou três anos seguidos acima de 1.000 toneladas em compras líquidas, mais que o dobro da média da década anterior. O padrão sugere desdolarização parcial das reservas, e o investidor brasileiro tem rotas de acesso ao metal na B3.

Fugazzi Research 9 min

Entre 2022 e 2024, os bancos centrais compraram mais de 1.000 toneladas líquidas de ouro por ano, os três primeiros anos da série do World Gold Council a cruzar essa marca desde 1950. O patamar é mais que o dobro da média registrada de 2010 a 2021. Instituições que administram reservas nacionais não mudam de comportamento nessa escala por acaso, e a pergunta do título tem menos a ver com o metal e mais com a moeda que ele substitui na margem.

Este artigo trata o fenômeno como o que ele é, um padrão macroeconômico observável em fonte primária. Não há aqui recomendação de compra ou venda de ativo algum. O objetivo é explicar o que os números mostram, por que a literatura de administração de reservas aponta a diversificação cambial como motor do movimento, e quais rotas existem para o investidor brasileiro que decidir estudar o tema por conta própria.

O que a série do World Gold Council mostra

O World Gold Council, associação global do setor que publica o relatório trimestral Gold Demand Trends (tendências de demanda por ouro), acompanha as compras líquidas de bancos centrais há décadas. O setor oficial é comprador líquido desde 2010, e o período de 2010 a 2021 acumulou 5.692 toneladas, uma média na casa de 473 toneladas por ano. Em 2020, ano de pandemia, o volume caiu a 255 toneladas, a mínima da década.

A ruptura veio em 2022. As compras líquidas saltaram para 1.081,9 toneladas, recorde da série histórica. Em 2023 vieram 1.037,4 toneladas e, em 2024, 1.044,6 toneladas, o terceiro ano consecutivo acima da marca de 1.000 e o 15º ano seguido de compras líquidas, segundo os relatórios anuais do World Gold Council. Em 2025 o ritmo arrefeceu para 863 toneladas, conforme o fechamento de ano publicado pelo próprio conselho, volume ainda próximo do dobro da média da década anterior. A sequência de compras líquidas chegou a 2025 intacta. O nível mudou de patamar e permaneceu lá.

Compras líquidas anuais de ouro por bancos centrais · toneladas
Figura. Compras líquidas anuais de ouro por bancos centrais, em toneladas. 2022, 2023 e 2024 foram os três primeiros anos da série a superar 1.000 toneladas cada, mais que o dobro da média de cerca de 473 toneladas ao ano registrada de 2010 a 2021. Fonte(s): World Gold Council, Gold Demand Trends, relatórios de fechamento de ano de 2021 a 2024 (Goldhub).
Nota de método. O World Gold Council revisa os números entre relatórios, à medida que bancos centrais reportam posições ao FMI com atraso, e parte das compras oficiais não é declarada de imediato. Os valores do gráfico seguem os relatórios anuais citados na legenda. Revisões posteriores mexem em casas decimais e, às vezes, em dezenas de toneladas, sem alterar o desenho da curva.

Por que bancos centrais compram ouro

A resposta curta da literatura de administração de reservas é que o ouro é o único ativo de reserva relevante que não é passivo de ninguém. Um título do Tesouro americano é uma promessa do governo dos Estados Unidos. Um depósito em euros é um passivo de um banco europeu. Ouro guardado no cofre do próprio banco central não depende da solvência nem da boa vontade de um emissor estrangeiro.

Esse atributo ganhou preço em 2022. O congelamento das reservas internacionais do banco central da Rússia pelos países do G7, após a invasão da Ucrânia, mostrou aos gestores de reservas do mundo emergente que ativos denominados em moedas ocidentais carregam um risco político que não aparecia nos manuais. Não por coincidência, o recorde da série do World Gold Council é exatamente o ano de 2022, e o próprio conselho atribui parte relevante do movimento recente a bancos centrais de países emergentes.

Há motivos menos geopolíticos na lista. O ouro tem histórico de funcionar como reserva de valor em cenários de inflação elevada e de juros reais baixos nas moedas centrais, sem que isso constitua garantia de comportamento futuro, e é um instrumento clássico de diversificação para quem administra um portfólio de reservas concentrado em poucas moedas. Para países emergentes, reduzir a dependência de uma única moeda de reserva também reduz a exposição ao ciclo de política monetária americana, o mesmo canal que examinamos em como os juros do Fed atingem os mercados emergentes.

O ouro é o único ativo de reserva que não é promessa de pagamento de ninguém. Depois de 2022, essa frase deixou de ser abstração de manual.

Desdolarização parcial, não fuga do dólar

O termo desdolarização pede precisão. O dólar segue sendo a moeda dominante das reservas internacionais e do comércio global, e nada na série do World Gold Council sugere abandono. O que os dados mostram é um movimento na margem, com bancos centrais, sobretudo de emergentes, elevando a fatia do ouro no total das reservas ao longo de uma década e meia de compras líquidas ininterruptas.

A fotografia por país ilustra a distância entre os blocos. No ranking do World Gold Council de maio de 2026, compilado a partir das estatísticas financeiras internacionais do FMI, os Estados Unidos mantinham 8.133,5 toneladas, com o ouro representando 83,3% das reservas, e a Alemanha, 3.350,3 toneladas, ou 84,0%. Na outra ponta, a China detinha 2.313,4 toneladas, apenas 9,1% de suas reservas, e o Brasil aparecia na 27ª posição, com 172,4 toneladas, o equivalente a 7,0% das reservas administradas pelo Banco Central. Se os emergentes seguirem convergindo na direção dos pesos das economias centrais, a demanda oficial tem espaço estrutural pela frente, embora nada garanta que a convergência ocorra.

Para o investidor brasileiro, o pano de fundo é familiar. Reservas em ativos externos funcionam como amortecedor nacional contra choques de câmbio e contra o prêmio que o mercado cobra de economias emergentes, medido por indicadores como o risco-país. O debate sobre quanto do patrimônio deve morar fora da própria moeda é o mesmo que aparece, em escala doméstica, em quanto investir fora do Brasil.

As rotas de acesso a partir do Brasil

Quem quiser estudar exposição ao metal encontra três rotas principais no mercado local, cada uma com mecânica e custos próprios. Nenhuma delas é recomendação. São as prateleiras disponíveis, e a escolha entre elas, quando houver escolha, depende de prazo, volume e tolerância a fricção operacional.

  • ETF. O GOLD11, nome de pregão do Trend ETF LBMA Gold Fundo de Índice (ETF, fundo de índice negociado em bolsa como se fosse uma ação), busca refletir o LBMA Gold Price, a referência internacional de preço do metal apurada em Londres. É a rota de menor fricção operacional para a pessoa física na B3.
  • Contratos. A própria B3 mantém contratos de ouro cotados em reais por grama, com o metal custodiado em instituição depositária. É a rota mais próxima do ouro físico dentro do sistema financeiro, com lotes e mecânica de negociação menos triviais que as do ETF.
  • Fundos. Fundos de investimento que compram exposição ao metal por meio de contratos ou de veículos no exterior, com taxa de administração e regras de resgate definidas em regulamento.

Um detalhe que o investidor local não pode ignorar é o câmbio embutido. O ouro é cotado em dólar no mercado internacional, então o retorno em reais de qualquer rota combina duas variações, a do metal e a da moeda. Em períodos de real fraco, a posição em ouro se comporta também como posição dolarizada, dinâmica parecida com a que descrevemos em a relação do investidor brasileiro com o dólar.

O ouro não paga cupom, dividendo nem aluguel. Sua função histórica em carteiras é de reserva de valor e de seguro de diversificação, não de geração de renda, e o preço oscila com força no curto prazo. As regras tributárias variam conforme a rota e passaram por propostas de mudança recentes no Brasil, ainda em discussão. Confirme as condições vigentes antes de qualquer decisão.

O que observar daqui para a frente

O padrão descrito neste artigo é verificável em fonte primária, mas não é imutável. Três sinais ajudam a acompanhar se a tese da desdolarização parcial segue de pé ou perde tração.

  • Ritmo. Se as compras líquidas anuais voltarem à casa das 400 a 500 toneladas típicas da década de 2010, a leitura de mudança estrutural enfraquece. Os relatórios trimestrais do World Gold Council são a fonte primária a acompanhar.
  • Composição. Compras concentradas em dois ou três bancos centrais contam uma história diferente de compras disseminadas por dezenas de países. O detalhamento por país sai das estatísticas financeiras internacionais do FMI.
  • Motivação. Bancos centrais compram por mandato de reserva, não por oportunidade de curto prazo. Volume oficial firme em anos de preço em queda reforça a leitura estrutural; compras que só aparecem quando o preço sobe sugerem outra dinâmica.

A pergunta que dá título a este artigo tem, portanto, uma resposta verificável nos dados e outra, especulativa, sobre o futuro do sistema monetário internacional. A primeira interessa a qualquer investidor que queira entender o pano de fundo das próprias decisões. A segunda, a Fugazzi prefere deixar em aberto, porque padrão observado no passado não é promessa de retorno à frente.

Perguntas frequentes sobre bancos centrais e ouro

Bancos centrais compram ouro para abandonar o dólar?

Não é o que os dados mostram. O dólar segue majoritário nas reservas internacionais, e as compras de ouro representam diversificação na margem, mais intensa entre países emergentes depois do congelamento das reservas russas em 2022. O termo mais preciso é desdolarização parcial, uma redução gradual de dependência, não uma troca de sistema.

O Brasil também mantém ouro nas reservas internacionais?

Sim. O Brasil aparece com 172,4 toneladas no ranking do World Gold Council de maio de 2026, elaborado com as estatísticas financeiras internacionais do FMI, o que representa 7,0% das reservas do país e a 27ª posição global. É uma fatia bem menor que a das economias centrais, caso dos Estados Unidos e da Alemanha, que mantêm mais de 80% das reservas em ouro segundo o mesmo levantamento.

Qual a diferença entre comprar GOLD11 e ouro físico na B3?

O GOLD11 é um fundo de índice negociado em bolsa que busca refletir o LBMA Gold Price, a referência internacional do metal, então o investidor carrega cotas, não barras. Os contratos de ouro da B3 envolvem custódia do metal em instituição depositária, lotes específicos e mecânica de negociação menos simples. Nas duas rotas, o retorno em reais combina a variação do ouro em dólar com a variação do câmbio.

Fugazzi Research

Do conceito ao método aplicado.

Este conteúdo é gratuito. Nas recomendações da casa, o método é aplicado com dados, simulações e acompanhamento de cada call até o encerramento. Assinatura por R$ 249,90/mês, cancele a qualquer momento.

Conhecer o Research

Continue no cluster

Sobre o autor

Eduardo BiasiCNPI 10189

Analista de Valores Mobiliários credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021, responsável técnico pela análise da Fugazzi Research.

Validar credenciamento na APIMEC

Autoria e conformidade

Conteúdo de opinião produzido de forma independente pela Fugazzi Research, casa de análise credenciada como pessoa jurídica pela APIMEC Brasil, sob responsabilidade técnica do analista Eduardo Biasi, CNPI 10189 (Certificação Nacional do Profissional de Investimento), credenciado pela APIMEC Brasil sob a Resolução CVM nº 20/2021. Regulatório e Compliance.

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui oferta, solicitação ou recomendação de compra ou venda de valores mobiliários ou de qualquer ativo. Investimentos envolvem riscos. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Criptoativos, derivativos e operações alavancadas envolvem risco elevado, incluindo a possibilidade de perda total ou superior ao capital investido. A decisão de investimento é de responsabilidade do investidor e deve observar seu perfil.

Declarações do analista (Resolução CVM nº 20/2021, art. 21). As recomendações refletem única e exclusivamente as opiniões pessoais do analista e foram elaboradas de forma independente, inclusive em relação à Fugazzi Research. A remuneração do analista é fixa e não está, direta ou indiretamente, relacionada à recomendação específica ou à precificação dos VM objeto da análise.